Isto não é um Diário – Zygmunt Bauman

Como temos visto ao longo de post’s anteriores a era da Tecnologia permitiu que a troca de informação e transmissão fosse feita por todos nós. Agora podemos pela primeira vez na história dar as nossas próprias opiniões, descrever as nossas experiências e publica-las num meio que é acedido por muitas pessoas, a internet. Nesse sentido, os blogs são plataformas que nos permitem fazer exatamente isso, permitiram que cada um de nós fosse escritor das suas próprias ideias e vivências.

Zigmunt Bauman é um sociológico conceituado da Polónia, tendo, atualmente, 91 anos. Graduou-se em Sociologia e tornou-se professor universitário. Começou a sua carreira na Universidade de Varsóvia e mais tarde ingressou na Universidade de Leeds. Recebeu prémios como: Amalfi (1989 – Modernidade e Holocausto) e Adorno (1998). Bauman, sempre foi um entusiasta do Partido Comunista Polaco, apoiando os movimentos socialistas e isto demarcou muitas das suas obras. O autor viveu em épocas onde ainda não existia a internet e por isso os textos eram apenas escritos em papel, mas vivenciou também a época da tecnologia, do aparecimento dos computadores, da internet e dos blogs e isso depreende-se muito no livro que vou referir em seguida.

“I was leftwing, i am leftwing, and i will die leftwing.” – Zygmunt Bauman

Uma das suas obras considerada por muitos excecional, This is not a Diary, descreve observações do autor durante setembro do ano de 2010 e Março de 2011. Este livro está dividido em excertos de textos que são datados. As reflexões feitas pelo autor não são pessoais, mas uma tentativa de descrever e comentar o mundo em que vivemos, descrevendo problemas quotidianos que o mundo e a sociedade atual apresentam.

Segundo Steven Poole “se Bauman tivesse postado os comentários deste livro na internet, teria sido o melhor blog do mundo”. De facto Bauman ao contrário de muitos autores e bloggers não escreve as suas experiências, mas sim, as experiências do mundo. O mundo como algo com significados subentendidos que são desvendados pelo autor e muitas das vezes criticados.

Começando pelo título da obra – Isto não é um Diário, afinal o que distingue a obra de Bauman de um Diário e porque seria este o melhor blog do mundo? Primeiramente, é preciso perceber que um diário é algo muito mais pessoal do que falar sobre o mundo e falar sobre o mundo não é experiência pessoal, mas impessoal. Por isso, os “posts” de Bauman não são apenas opiniões acerca de algo, relatam efetivamente acontecimentos, mas não de uma maneira descritiva que é a do diário. Os posts são escritos com críticas, estatísticas, eventos e isso é o que torna um texto num post.

Por um lado, o diário, proveniente da palavra em latim “diarium”, é de acordo com o dicionário português, um documento escrito que contem uma narrativa diária de experiências pessoais, normalmente, as narrativas são divididas por data e é descrito aquilo que aconteceu durante o dia. É uma agenda pessoal em que alguém relata os fatos do seu quotidiano, como por exemplo, O diário de Anne Frank – The Diary of a Young Girl.

“I can shake off everywthing if I write; my sorrows disappear, my courage is reborn.” – Anne Frank

Por outro lado, o blog trata-se de uma página virtual para partilha de informações, experiências pessoais ou noticias, composta por texto ou posts; podem ser utilizados como diários em formato online, sendo que os temas variam de acordo com o objetivo do autor. Nesse sentido, o blog é uma outra forma de diário, mas este é digital. Mas, afinal o que distingue estes dois formatos de demonstrar experiências? Antes do mais, um diário é muito mais pessoal que um blog, é algo que demonstra as emoções do autor e aquilo pela qual ele está a passar. Ao contrário do blog que é muito mais impessoal e descreve situações da vida quotidiana.

Durante a sua obra Bauman refere-se ao porquê da necessidade de se escrever um diário: “Os motivos de escrever são abundantes, uma multidão de voluntários alinhados até serem, notados, destacados e escolhidos. A decisão de escrever é, por assim dizer, “sobre determinada”. Nesse sentido, o livro de Bauman não é efetivamente um diário, mas um documento escrito que poderia ser transformado num blog, porque não fala apenas de si, mas de todos.

 “If Bauman had posted the pieces of this book on the internet as he went along, it would have been the world’s best blog. But I’m glad he didn’t”. – Steven Poole

Steven Poole acredita que se os textos de Bauman fossem postados online que seria dos melhores blogs do mundo, com post’s bem escritos, a referir temáticas importantes do mundo, da sociedade, de comunidades e de países, de eventos, estudos e investigações – o diário do mundo. Seria dos melhores blogs do mundo porque o texto não foi pensado como diário, mas como post. Ao contrário de muitos blogs, Bauman não tentou revelar uma faceta do mundo, decidiu antes ver o mundo como um caixa de areia e escrever sobre cada grão de areia. Decidiu perceber cada subfaceta dentro das grandes facetas do mundo e revelá-las ao mundo.

Concluindo, Bauman chegou à conclusão que não estava a escrever um diário, mesmo que no início do livro tenha começado com a perceção da importância de escrever um diário, o autor terminou o livro e percebeu que não tinha escrito um diário, mas um conjunto de posts. Nesse sentido, decidiu intitular o livro de “Isto não é um diário”.

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