Uma Vida sem Cultura – George Steiner

Cada vez mais, vivemos num mundo onde a globalização está no centro de todas as nossas atividades. Podemos ver os impactos da globalização em todo o lado e por isso a Ideia da Europa, a Europa como um centro cultural, pode estar efetivamente a desaparecer. Isto deve-se grande parte à ideia de americanização que é um fenómeno a que se tem assistido constantemente, nos últimos anos, tanto a nível musical, como a nível tecnológico e até a nível linguístico.

George Steiner na sua obra – A Ideia da Europa – quer passar a ideia de que a Europa ao contrário do continente americano é um continente rico em cultura, tanto a nível histórico, como a nível linguístico, a nível arquitetónico, entre outros. A Europa sempre foi vista como um centro cultural. Contudo, este sentimento tem deixado de ter tanto destaque, a Europa já não é vista como um lugar central no mundo, a Europa começou a seguir as tendências dos restantes países, mas mais precisamente, seguiu a americanização do mundo.

Para o autor, a cultura tem um papel vital na qualidade de vida humana e é a única possibilidade de proteger a dignidade humana e esta não é mais do que um convite ao cultivo da nobreza de espirito. Contudo, uma sociedade que ignora o enobrecimento deste espirito, uma sociedade que não cultiva as grandes ideias humanistas, acabará em violência e em autodestruição. A ideia da Europa é para George Steiner um ideal de civilização, contudo, culturalmente, a “Europa do século XX retrocedeu até à Idade Média e é o nosso dever preservar a herança cultural e transmiti-la por todos os canais que tenhamos à nossa disposição”. O conceito da ideia da Europa é destacado, através da matemática, do pensamento e da música: as três grandes atividades que definem e dignificam os seres humanos. Para o autor, a Europa sempre teve bastante presente no seu quotidiano, estas atividades, criando para a humanidade “um precioso depósito de conhecimento e beleza”. Porém, após as grandes guerras a Europa mergulhou num período de ditaduras, guerras civis e confrontos e perdeu grande parte da sua essência, contudo, Steiner acredita que é possível salvar a Europa. “é precisamente a cultura e a sua expressão em termos de unidade na diversidade que nos candidata à esperança quando pensamos no futuro da Europa”.

Explica o conceito da Ideia da Europa em oposição aos Estados Unidos da América, em oposição à americanização. O autor utiliza cinco axiomas para definir a Europa: as cafetarias; a paisagem a uma escala humana que possibilita percorrer os caminhos a pé; as ruas e as praças nomeadas segundo estadistas, cientistas, artistas e escritores do passado; a descendência dupla de Atenas e Jerusalém; por fim, a apreensão de um capítulo derradeiro.

Primeiro Axioma: Para Steiner, as cafetarias, cafés são locais que demarcam em grande parte a Ideia da Europa. Na sua maioria, são abertos a todos, é um local de entrevistas e conspirações, de debates intelectuais e mexericos, é um local para sonhar, para trabalhar. São as cafetarias que permitiram a muitos dos artistas ganhar inspiração e estes são vistos como locais de conhecimento. Estas ideias opõem-se muito ao bar americano que é um “santuário de luzes desmaiadas, muitas vezes de escuridão”. Estes vibram com a música, a sua sociologia e o seu tecido psicológico são permeados pela sexualidade e pela presença de mulheres. Há seguranças indesejados e as bebidas têm que ser renovadas, estas características são completamente diferentes dos antigos cafés europeus. Para o autor, “enquanto existiram cafetarias, a Ideia da Europa terá conteúdo”.

Segundo Axioma: A Europa é percorrida a pé, pode-se chegar a todos os lados da Europa apenas a caminhar e isto é uma parte muito importante para referir a Ideia da Europa. As proporções da Europa têm uma escala humana, este é um facto que determina uma relação essencial entre a humanidade europeia e a sua paisagem e esta paisagem foi alterada pela mão humana. Uma vez mais, há uma grande diferença em relação aos restantes continentes. Não é possível ir a pé de uma cidade americana para outra. “Ao contrário dos americanos que aquilo que domina é o automóvel e o avião a jato, mal conseguimos imaginar as distâncias percorridas e colocadas ao serviço intelectual e poéticos pelos mestres europeus”.

Terceiro Axioma: As ruas europeias ao contrário das americanas respiram história, intituladas pelos mais variados acontecimentos históricos que se passaram (estadistas, figuras militares, poetas, artistas, compositores, cientistas e filósofos). Os europeus habitam em verdadeiras câmaras de ressonância de feitos históricos, intelectuais, artísticos e científicos. “As placas toponímicas permitem não só registar o nome ilustre ou especializado, mas também datas relevantes e uma descrição sumária, é como se fosse folhear um passado presente”. Ao contrário, nos Estados Unidos, tais placas são escassas. As ruas são nomeadas com nomes comuns e as avenidas e as ruas são numeradas ou conhecidas pela orientação. A Europa é assim como um elemento de memória, as placas toponímicas comemoram séculos de história. Um europeu culto é apanhado no na teína de uma memória que é simultaneamente luminosa e sufocante. É precisamente essa teia que a América do Norte repudia, a sua ideologia tem sido a do nascer do sol e da futuridade, ao declarar que a história é uma palavra inútil.

Quarto axioma: deriva de uma dualidade: a herança dupla de Atenas e Jerusalém. “Ser europeu é tentar negociar, moralmente, intelectualmente e existencialmente, os ideais, afirmações, praxis rivais da cidade de Sócrates e da cidade de Isaías”.

  • Atenas: O ser humano gerou três ocupações: a música, a matemática e os pensamentos especulativo. Assim, estes três notáveis dignitários do intelecto humano e da formação da sensibilidade – música, matemática e metafísica – revela que “somos todos gregos”. Mas não só, a herança do grego estende-se até ao vocabulário dos teóricos, conflitos políticos e sociais, atletismo e arquitetura, modelos estéticos e das ciências naturais e ate mesmo a cartografia.
  • Jerusalém: Há muitos assuntos da nossa sociedade que vêm da origem hebreu, tal como a noção do Livro supremo, a noção de direito como algo inextricável em relação aos mandamentos morais, o próprio sentido de história, entre outros. O humanismo europeu procura diversas formas de compromisso entre ideais áticos e hebraicos. Assim, a ideia da Europa é um conto de duas cidades.

Quinto Axioma: é uma consciência própria escatológica que pode ser exclusiva da consciência europeia. O pensamento e a sensibilidade europeia tinham enfrentado uma finalidade mais ou menos trágica. A Cristandade nunca abandonou completamente essa expectativa de um fim para o nosso mundo (apocalipse). “É como se a Europa, diversamente de outras civilizações, tivesse intuído que um dia ruiria sob o peso paradoxal dos seus feitos e da riqueza e complexidade sem par da sua História”. As duas guerras mundiais que conduziram esta intimação ao ponto de ebulição e por isso a Europa “jazia em ruínas”.

George Steiner afirma que muitos autores previram a americanização. Nesse sentido, a Europa não é exceção, a Europa também segue as tendências americanas e deixa de ser um centro cultural. A disseminação da língua anglo-americana, a padronização tecnológica da vida quotidiana, a universalidade da internet, são considerados grandes passos para criar relações e evitar conflitos entre os vários territórios. Contudo, o génio da Europa é o génio da diversidade linguística, cultural e social e nada ameaça mais radicalmente – as suas raízes – do que a onde detersiva e exponencial do anglo-americano. O computador, a cultura do populismo e o mercado de massas fala anglo-americano e a Europa morrerá efetivamente, se não lutar pelas suas línguas, tradições locais e autonomias sociais.

A Ideia da Europa está entretecida das doutrinas e da história da Cristandade ocidental. Tanto a arquitetura, a arte, a música, a literatura e o pensamento filosófico encontram-se saturados de referências e valores cristãos. Contudo, as guerras religiosas entre católicos e protestantes deram forma ao destino europeu e ao mapa político do continente, o isolamento, a perseguição, a humilhação social e política do Judeu tem sido integrante da presença cristã. “A verdade brutal é que a Europa se recusou, até à data, a reconhecer e a analisar, quando mais a retratar-se, o papel diversificado da Cristandade na hora mais negra da História”. George acredita que enquanto a Europa não confrontar este lado negro da história, a Europa não poderá reerguer-se. Contudo, se conseguir libertar-se da sua própria herança negra, confrontando-a com receios, a Europa pode uma vez mais indicar o caminho a seguir.

George Steiner acredita que a única solução possível é desesperadamente urgente fazermos cessar a saída dos nossos melhores jovens talentos científicos da Europa devido às ofertas vindas dos Estados Unidos. É necessário que seja encontrada a diferença entre a América e a Europa em termos de salários, oportunidades de carreira, recursos destinados à investigação e à descoberta em parceria. A Reorientação do ensino secundário e dos meios de comunicação social é essencial.

 

O autor acaba a sua obra com esta última frase: “É entre os filhos frequentemente cansados, divididos e confundidos de Atenas e Jerusalém que poderíamos regressar à convicção de que a vida não refletida não é efetivamente digna de ser vivida”. Antes de mais o autor fala de nós, europeus. Nós somos os filhos de Atenas e Jerusalém, vivemos a cada minuto a história de um passado europeu que advém dos gregos e de Jerusalém. Somos as pessoas que devem alcançar a mudança, que devem dizer não à língua anglo-americana, deixar de seguir os padrões da americanização e fazer renascer a própria Europa como centro cultural. Para o autor, esta americanização está a deixar de fazer as pessoas pensarem em cultura, em história, em inspiração – está a deixar de nos fazer pensar. Nos dias de hoje, a Europa está apenas a seguir tendências e já não cria ela própria as tendências, a Europa segue em grande parte a língua anglo-americana em vez de lutar pelas várias línguas e culturas existentes. Nesse sentido, George Steiner acredita que é preciso tomar consciência de que a Europa sempre foi um centro cultural e se continuar a seguir tendências não haverá volta a dar. O autor acaba por afirmar que a vida sem artistas, sem intelectuais, sem estudiosos não é digna de ser vivida, porque a cultura traz-nos qualidade de vida, traz-nos moralidade, traz-nos a nobreza de espírito. Sem a cultura somos pessoas desinteressadas, pobres em espírito.

 

 

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