Comunicar a comunicação através da comunicação – Metadiálogos

Cada vez mais, vivemos num mundo onde a comunicação faz-se de uma maneira mais rápida e constante, as barreiras temporais e espaciais que antes havia à comunicação deixaram de existir. Hoje vivemos num mundo totalmente comunicativo, onde as barreiras foram totalmente ultrapassadas. Todos nós comunicamos constantemente seja pessoalmente ou através de vários dispositivos, sejam estes digitais ou não digitais.

O conceito do que é a comunicação e de todas as suas componentes, é um assunto que já é discutido e estudado desde há várias décadas atrás. É um assunto onde há várias vertentes, vários teóricos e por isso várias teorias. Por isso mesmo, é algo que nos preocupa, afinal de contas, é através da comunicação que trocamos informações e fazemos transações. É através da comunicação que muitas profissões, tais como, as Relações Públicas, o jornalismo, o Marketing fazem a sua ação.

Nesse sentido, como seres naturalmente comunicativos, a comunicação faz parte do nosso quotidiano, fazemo-lo constantemente quer queiramos ou não. É neste sentido que vou apresentar algumas noções do que afinal é comunicar, enriquecendo teoricamente através de exemplos do Livro Metadiálogos de Gregory Bateson, um dos autores mais famosos do mundo da comunicação.

Gregory Bateson foi um biológico e antropólogo bastante conceituado que teve como principais objetos de estudo a comunicação e as suas componentes. Como membro da escola de Palo Alto estabeleceu os seus conceitos numa perspetiva da Teoria dos Sistemas e da Cibernética, por isso, direcionou grande parte dos seus estudos na comunicação e nas relações humanas.

O Livro Metadiálogos de Gregory Bateson é uma das suas obras e é onde são apresentados muitos dos grandes conceitos da comunicação. O livro está dividido em sete metadiálogos entre o autor e a sua filha sobre sete assuntos problemáticos.

«Porque é que as coisas se desarrumam?» – demonstra o que é o conceito de entropia – porque para alguns de nós, estar arrumado é uma coisa e para outros de nós estar arrumado é outra. Bateson, afirmou que há mais estados de desarrumação do que arrumação, e por isso mesmo, as coisas parecem sempre estar desarrumadas. O autor pretende através deste excerto, realçar o conceito de entropia, ou seja, a imprevisibilidade dos acontecimentos, quanto maior for a imprevisibilidade maior é o seu carácter informativo.

«Porque é que os franceses mexem muito os braços?» – demonstra a diferença do que é a comunicação não-verbal e como ela pode ser exprimida e eficaz. A importância da comunicação não-verbal em termos de transação de informação. Por vezes, sentimos algo que não temos o à vontade de dizer em voz alta e é através da comunicação não-verbal que é possível perceber estes pequenos detalhes.

«Acerca de jogos e de se ser sério» – no qual, é destacado como todos têm perceções diferentes do que é jogar e do que é brincar, ou seja, a forma como cada um de nós interpreta o sentido das palavras é apenas um fenómeno subjetivo. Para muitos de nós jogar não é sinónimo de brincar e para outros de nós é, ou seja, partimos todos de pontos diferentes.

«Pai, quanto é que tu sabes?» – destacando alguns conceitos como a cibernética e a cognição – de que forma, nós assemelha-mos coisas “não humanas” a coisas humanas. O autor explica estes dois conceitos, através da incapacidade de podermos calcular quanto conhecimento temos e como isso pode ser diferente de pessoa para pessoa. Afinal de tudo, a mensagem é formada a partir da combinação de um conjunto de ideias, do qual existem experiencias diferentes, dando a continuidade ao diálogo.

«Porque é que as coisas têm contornos?» – atendendo ao facto que os seres vivos aprendem e através dessas experiencias e aprendizagens que os torna únicos e por isso mesmo há um conceito de imprevisibilidade do mundo, porque o mundo é feito de seres com experiencias diferentes, o que os torna a todos imprevisíveis. É possível verificar, se as conversas têm contornos, mas apenas após o término da mesma.

«E porquê um cisne?» – no qual, o autor dá a conhecer conceito de intitular coisas e de que forma chamar algo de outra coisa funciona no dia-a-dia da comunicação. A isto, podemos intitular de “relações metafóricas” entre a realidade e o referente.

«O que é o instinto?» – no qual, o autor explica de que forma certas palavras não têm que ter um significado concreto, porque a própria palavra é o utilizado para descrever tal sentimento. O referente é algo utilizado universalmente e por isso mesmo, não há necessidade e invocar uma definição.

Gregory Bateson, no seu livro Metadiálogos apresenta a comunicação num contexto de troca e transação de informações. Afinal, todos nós comunicamos sobre variadíssimas coisas, as pessoas “falam sobre outras pessoas e sobre si próprias e a respeito dos presentes que receberam no Natal”. Somos meios de interação social e comunicamos sobre aquilo que nos faz sentido comunicar em determinadas situações. Nesse sentido, é possível afirmar que trocamos informação uns com os outros.

Há vários tipos de comunicação, temos a comunicação verbal que é feita através da fala, através da locomoção verbal, através de um som. Temos também a comunicação não-verbal, esta pode ser gestual, através de sinais ou até mesmo pela ausência da fala. “Pai: Bom, falaste na minha pesca, assunto a respeito do qual sou sensível, e depois houve um intervalo, um silêncio na conversa, e esse silêncio diz-te que não gosto que te metas comigo a respeito de quantos peixes não pesquei. É como o francês que para de mexer os braços quando fica ofendido”. Todos nós temos várias maneiras de comunicar e não é preciso a locução verbal para tal.

Todos estes exemplos que o autor faz referência são formas de comunicação não-verbal, formas de comunicar do qual se depreende uma informação sem a existência de som sonoro. A comunicação não-verbal permite, muitas das vezes, tirar mais informação do que a própria fala: “Às vezes, se as pessoas estiverem dispostas a ouvir com cuidado, é possível fazer mais do que trocar cumprimentos e desejos de boa saúde. Mesmo mais do que trocar informação. As duas pessoas podem mesmo descobrir qualquer coisa que nenhuma delas sabia antes”.

Por um lado, a comunicação gestual é uma vertente muito mais complexa do que parece à partida, “O ponto é que as mensagens que trocamos por gestos não são de facto as mesmas que as traduções desses gestos em palavras”. Contudo, para Gregory Bateson, todos os métodos de comunicação são efetivos de maneira igual, “Quero dizer que nenhum esforço em dizer a alguém por «simples palavras» que se está ou não se está zangado é tão bem sucedido como dizer-lhe por gestos ou tom de voz”.

Por outro lado, a comunicação verbal pode ser escrita, pode ser transformada em palavras escritas, estas podem ter várias formas de mostrar os sentimentos pela entoação do texto. “Porque as palavras escritas ainda têm uma espécie de ritmo e ainda possuem entoação … Só há palavras com gestos, ou tom de voz, ou coisas do género. Mas, evidentemente, gestos sem palavras são frequentes.”

O autor acaba por afirmar, assim, que a Linguagem é acima de tudo “um sistema de gestos”. Ao contrário dos humanos, os restantes seres vivos comunicam através de gestos e tons de voz, mas apenas os Humanos têm a capacidade de gesticular palavras através de vários sons e formas palavras, “Os animais têm só gestos e tons de voz – as palavras foram inventadas mais tarde.”

Gregory, Adiantou que uma conversa “é um jogo, se uma pessoa toma parte nela com um dado conjunto de emoções ou ideias, mas não é um jogo se essas ideias ou emoções forem diferentes.” Com isto, o autor quer afirmar que todos temos experiências diferentes e são essas experiencias que permitem dar comunidade a uma conversa. Se todos tivéssemos vivenciado as mesmas experiências, do que é que íamos comunicar?

Por fim, Bateson acreditava que a comunicação é essencialmente uma comunicação dentro de uma comunicação, ou seja, há várias conversas dentro de uma mesma conversa. Existe realmente uma conversa – aquilo que está a ser dito – e a conversa de meta-comunicação – aquilo que está a ser transmitido. Por isso mesmo, intitulou um dos seus mais emblemáticos livros sobre a comunicação de Metadiálogos, que nada mais é do que, comunicar a comunicação através da própria comunicação.

Concluindo, comunicar é tudo aquilo que nos rodeia, como seres vivos e naturalmente sociais temos a necessidade de comunicar regularmente. Recebemos informação e transacionamos informação, tudo dentro de um processo comunicativo entre duas ou mais pessoas. Este tipo de comunicação pode ser através da fala e também de comunicação não-verbal, contudo, também podemos transacionar informação que não estamos a percecionar que estamos a emitir, isto faz com que, a comunicação muitas das vezes seja imprevisível. É imprevisível, também, porque somos seres com experiencias diferentes e isto molda a forma como comunicamos, por isso mesmo, podemos afirmar que o mundo é em si mesmo imprevisível porque é feito de seres imprevisíveis que comunicam e interagem entre si, emitindo e recebendo informações. Como comunicamos sobre tudo aquilo que nos rodeia, também comunicamos sobre a própria comunicação, por isso, há uma grande preocupação pelo estudo de todas as componentes da comunicação.

 

 

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